3 de mai. de 2011

Copo de veneno.


Me vejo como este copo de veneno. Queimo. Mato lentamente. Faço sofrer amargamente. Sou transparente, mas jamais me decifrarás, e quando isso acontecer, será tarde demais. Já terei te consumido completamente. Envenenado-te. Sou uma passagem de ida sem volta. Ida para o paraíso ou para o inferno. Tudo depende de como serás comigo e para onde queres ir quando estiveres mais aqui. Pois como um fiel e amargo copo de veneno, te apresentarei o outro lado da vida. Vida?

21 de mar. de 2011


Fazer tudo errado é um dom. É como ter um escudo desviando os acertos e absorvendo os erros. Dói, machuca, queima. Mas não há nada a ser feito. Minto. Há tudo a ser feito.
Afastar, fugir. Não consigo. Talvez tenho outro dom: o de me acostumar com o pior. Aprendo a conviver com as escolhas que tanto fazem mal, que me levam noites de sono e me tiram lágrimas.
E o pior, se eu tivesse outra chance, não faria diferente. Aí é que eu não entendo. Como posso querer errar sempre? Como posso gostar disso?
Talvez seja porque eu prefiro o errado por ter medo do certo. Prefiro me machucar do que machucar o outro, mesmo não tendo nenhum vínculo com o ser.
Sou tão errada que faço todos acreditarem na minha "realidade", nos meus "acertos.

26 de jan. de 2011

Memórias de uma suicída.

O vento batia em meu corpo e me empurrava contra a direção que eu almejava seguir. Ele era forte, frio, violento. Ardia em minha pele, como se uma pequena malha de brasas me agasalhasse. E por mais que eu quisesse sentir o calor das brasas, a dor prevalecia. A dor era tudo e mais um pouco. Ela exercia controle de cada parte do meu corpo, emitindo enormes ondas de choque elétrico, me fazendo tremer e olhar sempre pra baixo.
Pra baixo. Era pra lá que eu queria ir. Deixaria a imensidão negra da noite me engolir. Dominar cada centímetro do meu corpo, fazer o que bem entender com ele. A altura era assustadora para qualquer individuo que se encontrasse no meu lugar. Qualquer um, menos eu. Sempre fui fã de alturas. Adoro aventuras, e essa seria uma maravilhosa para fechar meu livro chamado Vida com chave de ouro.
Meus cabelos longos e dourados flutuavam no ar, dançando agitadamente no ritmo do vento. Olhei pras minhas brancas e gélidas mãos, elas tremiam e soavam exageradamente. Tentei enxugá-las na calça jeans apertada que eu escolhera pra descansar. Calça jeans escura e apertada, blusa de manga branca, jaqueta de couro preta e coturnos combinando com a jaqueta. Observei mais uma vez minha aparência. Meu corpo já estava debilitado, tão magro como nunca fora. Podia lembrar-me de quando o olhei nu pela última vez, horas antes. Tão pálido, magro, apenas a pele sobre o osso, passando uma imagem de doente, morta-viva. Mais morta do que viva. Sorri da minha ironia. Viva. Isso parecia engraçado, talvez porque não seria assim por tanto tempo.
Dei mais um passo a frente e senti algumas gotas geladas caírem sobre meu corpo. Poucos segundos depois a blusa branca já estava transparente, grudada em meu corpo. Meus ossos saltavam do tecido fino e percebi que estava mais frágil que imaginava. Achei que fosse desmoronar na próxima rajada de vento.
Olhei pra baixo novamente e calculei no máximo três centímetros da ponta das minhas coturnos pra o final da grande rocha. Tentei calcular também a altura na qual eu me encontrava. Não consegui. Talvez porque fosse tão alto que eu não enxergava o final. Respirei fundo e senti o vento cortante penetrar meu nariz e boca, raspando com uma navalha uma pequena camada da minha sensibilidade.
A dor não diminuiu, eu apenas estava acostumada a conviver com ela. Ela era minha parceira de tantos longos anos. Chequei mentalmente se deixara o bilhete pro meu pai num local que ele visse. Dentro da geladeira, em cima do engradado de cervejas. Certeza que ele estava lendo agora, pois teria a grande final do seu time de futebol favorito e é lei assistir jogos com cervejas. Sorri novamente. Essa noite seria marcante pra ele.
Coloquei a mão na cintura e encarei novamente a infinita imensidão escura que me esperava. Ouvi passos. Gritos. Muitos gritos, mas eu não podia identificar o que eles queriam dizer. O vento era forte e alto, portanto não me deixava ouvir nada além de gritos sussurrados.
Os passos se aproximavam e os gritos também. Reconheci a voz. Era ele. Ele. Ele. Eu não pude acreditar, falei pra nunca mais vir atrás de mim e que isso seria a coisa certa a fazer. O único jeito de acabar com minha dor e fazer essa doença me matar de vez. Olhei pra trás e pude identificá-lo pela última vez. Gravei bem seu corpo escultural em minha mente, para levá-lo para a eternidade. Os braços extremamente musculosos e o peito desenhado à mão marcavam a blusa branca e molhada que ele vestia. Uma calça clara ensopada da chuva e tênis escuros. O cabelo curto, mas bagunçado. A voz. Me fez estremecer.
- NÃO FAZ ISSO.
Olhei pra frente e pulei. Senti cada centímetro do meu corpo enrijecer com a queda livre. Abri os braços e tive a sensação que sempre sonhei: voar. Era incrível. Pena que não durou muito.

16 de jan. de 2011

Algo de extrema inutilidade.


Venho por este, noticiar um fato de nula importância para a sociedade: não obtenho mais resultados em minhas tentativas de por pra fora tudo que sinto através de palavras.
As folhas permanecem em branco, quase do jeito que as encontrei. Se não fosse pelos pequenos amassados na ponta ou pelas inúmeras marcas das vezes que passei a borracha sobre rabiscos do lápis.
A inspiração não me habita mais. Essa fugiu, não deixou explicações ou substituição. Procuro-a em todas as partes. Todas. Vejo um pássaro voar. Liberdade. Jamais sentira isso, portanto não posso escrever a respeito. Duas pessoas felizes. Amor. Não me atrevo a falar sobre. Complexo demais. É preciso sentir para saber, e quem dirá que você realmente saberá?
Enfim, todos os fatos me levam a mesma conclusão: desaprendi a amar. Desaprendi a viver. Desaprendi a respirar. Desaprendi a escrever.
Enquanto isso procurarei outras formas de desabafar. Mas provavelmente não vou encontrar, porque a única coisa que sei fazer é escrever.
Quando na verdade eu não sei, apenas tento. Saber é entender, dominar, compreender etc.
Eu não sei de nada, não domino nem sequer minha personalidade. O que fazer se não escrever? Por que não tentar? Por que não errar? Por que não consigo mais?
Encontrarei a resposta escrevendo. E venho por este, noticiar um fato que continua sendo de nula importância para antes sociedade, agora para alguém: vou continuar tentando obter resultados em minhas tentativas de por pra fora tudo que sinto através de palavras.

29 de nov. de 2010

lembranças.


Permaneço nesse mar de lembranças que você me pôs. Com a certeza que conseguirei sobreviver se me esforçar mais um pouco. Nado, tento, luto, quase alcanço... mas sou vencida por uma onda de recordações que me deixam um pouco boba, agindo por inconsequencia.
Mesmo assim não desisto, continuo nadando para vencer. E quando consigo enxergar a superfície, sou vencida novamente pela mesma onda de recordações. E entre umas e outras braçadas, entrego-me lentamente a essa agitada maresia de lembranças, pedindo para quem sabe um dia conseguir me salvar.

7 de nov. de 2010


Por tanto tempo eu escondi, mas agora vou falar.
Eu não te esqueci, se é isso que você quer saber.
Aqueles momentos foram tudo pra mim sim, e hoje eu não temo em dizer isso, pois sei que você sentia o mesmo.
Quando eu temia, era porque não sabia dos seus sentimentos. Mas depois achei eu achei que tivesse te esquecido e você fez o favor de dizer que me amava... que continuava se importando comigo e que a distância doía demais.
Tarde demais, eu já nem te amava mais.
Só que aí você conseguiu me esquecer. Jogou fora todos os momentos e coisas lindas ditas. Afinal, você ainda se lembra disso? Pois é, lembro-me de tudo em cada detalhe.
Conseguiu destruir toda minha doce ilusão de achar que não te queria mais ao chegar na minha frente e sorrir.
E agora só faz me confundir, com declarações contraditórias.
Mas afinal, tudo vai voltar a ser como era antes? O mundo realmente gira e coloca tudo no seu devido lugar? Não sei, mas o tempo dirá.
Só espero que não seja tarde demais quando você perceber que ainda precisa de mim.

Ah, e eu quase me esquci... ainda me sinto tão vulnerável a ti :/

10 de out. de 2010

Pela Eternidade.

Era um domingo de primavera, no fim da tarde, o céu estava alaranjado e a insegurança do Pedro estava matando-o cada vez mais. Ele estava ali para um encontro, com sua querida Bia. Pediria sua mão em casamento, ela não podia imaginar.
Meia hora se passou, nem sinal dela. Mais uma hora e o telefonema.
“– Sinto muito” – falaram.
No outro dia, a manchete no jornal: “Jovem é atropelada enquanto caminhava na calçada e não sobrevive.”
Foi o fim pra ele.
A partir dali, tudo que o Pedro desejava era partir também, para reencontrá-la. O anel de noivado que a ela nunca seria entregue estava guardado, e todo dia ele olhava para o brilhante anel.
Pedro passou o resto dos seus dias vivendo para a Bia: chorava e permanecia em uma tristeza sem fim, mesmo depois de cinco anos. Não havia beijado outros lábios depois dela. Não havia mais amado ninguém. O amor já nem morava mais em seu peito.
Era um domingo de primavera, no fim da tarde, o céu estava alaranjado, e Pedro ali adormecia. Deitado sobre o túmulo da sua Bia e um vidro vermelho ao lado. Talvez fosse um remédio pra dor de cabeça, talvez não.
No outro dia, a manchete no jornal: “Suicídio no cemitério”.
E ali passaram a viver juntos, pela eternidade.